Contabilidade Gerencial na Prática

Publicado em 21/08/2018

Contabilidade Gerencial na Prática

João era um jovem empreendedor, que um belo dia recebeu uma bolada de 100 mil reais e resolveu abrir seu primeiro negócio. Ele era apaixonado por cães e gatos e o mercado Pet estava (e ainda está) em pleno crescimento no país. Então João decidiu pegar sua grana e abrir um pequeno Pet Shop.

Como todo empresário de primeira viagem, ele passou por diversos apertos no início, fez alguns investimentos em produtos que não tiveram grande aceitação, contratou pessoas erradas e perdeu dinheiro com demissões e novos treinamentos, além de ver boa parte do seu caixa ser corroído por impostos. Então, em uma manhã de desespero, João acordou decidido a usar o bom e velho “jeitinho brasileiro”: decidiu não mais emitir notas para tudo o que vendia. Fez um plano na ponta do lápis e só declarava aquilo que era “rastreável”. Emitir nota para vendas em dinheiro? Só se o cliente exigisse…

Aos poucos ele começou a perceber os resultados do seu “plano infalível” e notou que estava sobrando dinheiro em caixa no fim do mês. Assim, João passou a fazer retiradas mensais com aquilo que ele acreditava ser o lucro do seu pequeno Pet Shop. Até que um belo dia ele recebeu uma ligação, daquele ser temido por muitos empresários… calma, não foi a Receita Federal (não, ainda!). Foi o contador do João.

O contador explicou que o Pet Shop estava com um prejuízo fiscal enorme e que ele, mesmo sendo o sócio, estava “devendo” também uma grande quantia para sua empresa. E que se as coisas continuassem daquele jeito, ia ficar quase impossível fazer declaração de imposto de renda do João no ano seguinte, pois não havia como justificar de onde vinha aquela grana toda. O Pet Shop era uma bomba relógio… era questão de tempo até o Leão descobrir o que estava acontecendo.

Essa situação do Pet Shop do João infelizmente se repete dia após dia em centenas de empresas brasileiras. Por desconhecerem conceitos de Contabilidade Gerencial e por não entenderem a nossa complicada tributação, os empresários erram na hora de precificar seus produtos, não sabem como embutir o valor dos impostos no preço e quando as contas estão no vermelho, eles acreditam que o motivo de não terem lucro são os impostos. E aí começam a sonegar. Para piorar a situação, grande parte dos nossos contadores limitam seu trabalho a emitir as guias de tributos, fazer a folha de pagamento e fechar um balancete mensal que não chega nem sequer perto da realidade da empresa. Os contadores não orientam os empresários, não ajudam na administração da empresa e quando a coisa já está “bem feia”, é que eles ligam o alerta vermelho e avisam que a situação chegou ao limite.

Pensando nisso, a TagPlus resolveu te dar mais uma força na gestão da sua empresa. Na série de artigos Contabilidade Gerencial na Prática, vamos te ensinar de forma bem simples e didática a entender como seu contador monta um Balanço Patrimonial e uma DRE, que informações e indicadores de desempenho são possíveis extrair dessas demonstrações contábeis, como você pode calcular seus impostos e descobrir se sua empresa está no melhor Regime Tributário e como manter um fluxo de caixa saudável mesmo cumprindo todas as suas obrigações fiscais.

Como tudo começa?

No nosso primeiro artigo da série Contabilidade Gerencial na Prática, vamos mostrar como um Balanço Patrimonial é montado. Em outro artigo nós já falamos um pouco sobre a divisão do Balanço Patrimonial. Caso você não se lembre de todas as contas que compõe o Ativo, o Passivo e o Patrimônio Líquido, basta fazer uma revisão rápida, clicando aqui.

Então vamos lá. Lembra quando o João pegou aqueles $ 100 mil e resolveu abrir seu Pet Shop? Esse dinheiro, que representa o investimento inicial feito no negócio, é o que chamamos em contabilidade de Capital Social. Como já sabemos, o Ativo tem que ser sempre igual à soma do Passivo com o Patrimônio Líquido (A = P + PL). Portanto, os mesmos $ 100 mil tem que constar no Ativo para que a conta feche.

Considerando que o valor de $ 100 mil foi totalmente integralizado no ato da constituição (ou seja, foram transferidos da conta de Pessoa Física do João para a conta do Pet Shop), ele passa a fazer parte do Ativo Circulante, o que faz com que a conta feche! Assim o Balanço começa a tomar forma, ficando assim:

Para montar seu Pet Shop, João precisou comprar móveis, equipamentos para banho e tosa e um computador com impressora de cupons fiscais. O valor total dessas compras foi de $ 50 mil, sendo $ 20 mil pagos a vista e o restante dividido em três parcelas de $ 10 mil. Esses bens, necessários para o desenvolvimento do negócio, são o que compõe o Imobilizado, no Ativo Não Circulante. Portanto, temos que lançar $ 50 mil no campo correspondente. Porém, apenas $ 20 mil saiu do banco. O restante representa a primeira obrigação contraída pela empresa, que fará parte do Passivo. Como o prazo de pagamento é inferior a um ano, temos que lançar $ 30 mil no Passivo Circulante. Veja como ficou o Balanço:

Depois de montar a loja, o próximo passo de João foi comprar produtos para revenda. Após negociar com diversos fornecedores, ele encheu as prateleiras do Pet Shop com rações, coleiras, brinquedos pet, casinhas e caminhas. Gastou $ 30 mil em produtos para revenda e dividiu em três parcelas de $ 10 mil, sendo a primeira parcela à vista e o restante em 30 e 60 dias. Nesse caso, todos os produtos para revenda devem entrar no Ativo Circulante, como estoque, mas como apenas $ 10 mil saíram do caixa, os outros $20 mil também passam a compor as obrigações de curto prazo, entrando no Passivo Circulante. Veja:

Por fim, antes de abrir as portas, João precisou contratar funcionários. Ele contratou um colaborador para atendimento e vendas e outro para banho e tosa. Para fins didáticos, vamos considerar que o salário de cada um é $ 1.500 e que não houve vendas no primeiro mês. Os funcionários apenas ajudaram a preparar a loja nesse período. Como esses salários só serão pagos no mês seguinte, os $ 3.000 devem entrar no Passivo Circulante. E já que não houve movimento no Ativo, para que o total do Passivo continue em $ 150 mil, temos que lançar um prejuízo de $ 3.000 no Patrimônio Líquido. Portanto, o Balanço encerra o primeiro mês dessa forma:

Agora sim está tudo pronto para receber os peludos! No próximo artigo vamos mostrar o que acontece com o Balanço quando a empresa começa a vender seus produtos e serviços. Caso você tenha ficado com alguma dúvida até aqui, mande pra nós nos comentários! Até a próxima!

Escrito por:
Paulo Henrique França Alves

Diretor Financeiro da TagPlus. É formado em Processos Gerenciais pela FGV e pós-graduando em Gestão Estratégica de Finanças pela PUC Minas.